domingo, 6 de dezembro de 2009

""Isso é muita sabedoria"



Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.

Clarice Lispector imagem:Google.com

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Se eu fosse eu




"Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como?não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais".


Clarice Lispector-Texto do Livro A descoberta do mundo imagem:Google.com

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

UM DIA A GENTE APRENDE


Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos, e que presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.


Depois de um tempo você aprende que o sol queima se se expor por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam. E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.


Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam. Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.


Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tiradas de você muito depressa, por isso sempre deve deixar as pessoas que ama com palavras amorosas, pois pode ser a última vez que as vê. Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, e nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não deve se comparar aos outros, mas com o melhor que se pode ser.


Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo; mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados. Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática.


Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a se levantar. Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas, do que quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.


Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.


Você aprende que realmente pode suportar porque realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!


Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar…


William Shakespeare imagem google.com

domingo, 29 de novembro de 2009

Finais iguais


Uma história. Dois finais iguais por sinal.Pobre moça com sua história vivida,com sua esperança viva,forças lastimáveis,consumidas.
Caminha a passos lentos de sua trajetória confusa e incansável, ou melhor dizendo, outrora incansável,hoje, cansada pelo peso de tanta mágoa.A esperança não a deixou,entendo bem,sempre há um pequeno fio que transparece no olhar.
Tempos passados banhou-se em águas de perda, viu-se indo para fora, lançou com uma certeza incerta suas forças pelo ralo, aquelas águas não voltam.
Em meio a distancia de seu antigo alvo, nunca deixou de procurar por notícias, sabia bem que haviam notado que aquelas águas a lavaram e escorreram por seu corpo descendo por aquele miserável ralo levando todo o passado de seus sonhos. Sem sentido talvez,deleitou-se sobre as letras de seu autor,seu poeta,aquilo tudo que foi escrito era pra ela,era ilusão,era simplesmente tudo o que precisava,Dia após dia buscava por respostas,por palavras,e sentia-se completa ou queria definitivamente completar-se.
Doce moça, alimentou-se de todas aquelas admiráveis letras, encheu-se com algo que parecia puro, deixou todos os novos planos, estruturou-se em algo inexistente. Para enfim descobrir que aquilo não se referia a nada de sua história, seu admirável poeta lhe disse com suas próprias palavras, que o problema da moça era a leitura, ela lia algo que não se referia a ela.
Quanta personalidade em uma única pessoa. Como pode ser?!Ela transmitiu seus sinais, nada aconteceu pela segunda vez. Como pode ser se fazer de ignorante o autor a esse ponto?Ele sabia que a história precisava de um final. Ele sabia o quanto havia sofrido quando sua moça banhou-se em águas de desistência.Ele sentiu o vazio também.Aquilo para ela foi como tentar jogar para cima suas tolas tentativas.
Ela passou meses e meses buscando por suas palavras, por suas atitudes, por seus olhares, por seu gesto, Mas. nenhuma palavra foi dita,como se não houvesse passado,como se não tivesse experimentado este vazio.
Enfim chegou a hora de repetir a mesma história. Hoje, antes de entregar-se ao fim novamente, procurou pelo autor, o observou naquela reunião em que estavam, e aguardou por algo que obviamente não existiria, ele se aproximou e a cumprimentou friamente, o beijo em sua face foi tão seco que ela mal teve força para erguer-se em sua direção.
Entendeu então o poder da interpretação de uma leitura, entendeu que os autores nem sempre conhecem o amor, somente inventam aquelas palavras lindas e vazias, ela conheceu só, sentiu-se uma tola, enganada com todos os enganos criados por sua mente. Em uma atitude difícil,entra novamente em um mar sem fim,em busca de algo que a complete algo foi deixado para trás com tudo isso.O autor pode continuar a escrever,mas a magoa que transparece escorrendo pela face da moça cega o sentido de suas palavra,e escreve duramente para ele,com suas palavras no verdadeiro sentido,que desistiu desta ilusão que criou,vai hoje mesmo depois daquele beijo frio,procurar por calor,precisa de olhares,de palavras quentes,estendeu e esperou tanto por algo mas nada ele fez,desistiu.Pobre moça,seja feliz.


imagem:Google.com

domingo, 25 de outubro de 2009

Pertencer



"Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos."

Clarice Lispector -imagen Google.com

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Você tornou-se um eu


Não fui. Ontem era domingo e eu não queria chorar em vista. Estando lá, choraria o choro que não é tão meu. Resolvi chorar sozinho. Sem. Há mais dela em mim do que eu imagino. Isso me assusta porque não sei como reagir. O choro? Quero reprimi-lo em mim, mesmo estando fora do meu alcance. Preferi não ir vê-la para continuar sem a ilusão. Sei tocar, sei pintar... há silêncio nas notas e as cores do quadro estão vagamente sem brilho. Não posso vivenciar novamente. Não sozinho. Isso gera lágrimas. Sozinho, não posso. Talvez no próximo domingo. Mas eu quero o começo, e isso se dá na segunda-feira da vida. Eu chamo isto de estado agudo de ansiedade. Estou terrivelmente confuso e parece que alcanço um plano intenso de dúvidas: O que ela sente é o mesmo que eu? Não sei. E quase desisto de receber essa in-luz de conhecimento. Talvez o que eu quero ouvir só surdos ouça. Ouvidos enamorados. *
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Algo está sempre por acontecer. O imprevisto improvisado e fatal me fascina. Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo. Você tornou-se um eu. É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade. Estou terrivelmente lúcida e parece que alcanço um plano mais alto de humanidade. **
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Imagem:Google.com
* Thiago Yaagob ** Clarice Lispector - Água Viva

Equilíbrio


Não há com fingir, admito a falta de equilíbrio. Falta-me um toque disso que desconheço, por isso volto ao nada, ele evita que haja escolha.Existem coisas que não escolhemos, existe o admirável poder da escolha, o nada subitamente vago,friamente não lembrado e sem contexto,o que não existiu não causa dor,aquilo que não existir não causará marcas.Vejo-te e sei como estás, falar-lhe foi dolorido, mas como poderia plantar uma nova semente?Certamente seu crescimento retardaria, é a falta de equilíbrio, tudo o que contemplo sobre a palma de suas mãos é de fato tentador, mas do que adianta enfeitar uma caixa vazia quando tudo o que tenho é o vazio do nada para retribuir-lhe? Certa vez em mim houve o tudo, não tinha a quem oferecer. Estes pés já caminharam na tentativa de fugir, fico aqui.Veja-me.É agradável contemplar-me?Se sim isso tudo é perfeito, se não, não se compadeça, o equilíbrio é meu alvo, pretendo encontrá-lo logo mais, não pense em nada, continue a sorrir em minha direção, és tão feliz!!Encanta-me esta clareza. Mas falta-me algo que hei de encontrar,equilíbrio diante do nada.

imagem:Google.com